domingo, 12 de junho de 2011

Um poema de Jules Laforgue

Montevidéu, 1860/ Paris, 1887

MEDIOCRIDADE



No infinito coberto de eternas belezas,
Como átomo perdido, incerto, solitário,
Um planeta chamado Terra, dias contados,
Voa com os seus vermes sobre as profundezas.

Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,
Marchando, indiferentes ao grande mistério,
E quando um dos seus é enterrado, já sérios,
Saúdam-no. Do torpor não são arrancados.

Viver, morrer, sem desconfiar da história
Do globo, sua miséria em eterna glória,
Sua agonia futura, o sol moribundo.

Vertigens de universo, todo o céu só festa!
Nada, nada, terão visto. Partem do mundo
Sem visitar sequer o seu próprio planeta.

Tradução de Régis Bonvicino

EURÍPEDES


“A morte não é nada. 
Mas viver derrotado 
e sem glória é morrer 
diariamente.” 

Para que servem as palavras

Tem um filme de terror em que ocorre um blecaute num cinema.
Ao retornar a luz, a maioria das pessoas da sessão haviam desaparecido.
Os sobreviventes pouco sabem, a princípio, o porquê daquilo.
Mas percebem que o fenômeno se deu no mundo todo.
Começam a entender que há uma escuridão, que cada vez avança mais e mais.
O sol, a cada dia que passa, surge mais tarde e a noite se prolonga.
Essa escuridão tem por finalidade encurralá-los e, por fim, devorá-los.
Começam a perceber também que a única coisa que os pode salvar é alguma luz que, porventura, consigam manter acesa.
Um a um são tragados pela sombra, enquanto correm desesperados atrás de lanternas e postes de luz, faróis de carros e baterias portáteis.
É assim que acontece.
Essa luz é tua humanidade.
E essa sombra é a barbárie se aproximando.
Tua vida vale menos que teus pertences e é facilmente tirada por causa de uma discussão.
Essa pequena e preciosa luz, que levamos milênios para criar desde que nos arrastamos das obscuras cavernas da nossa animalidade, está desaparecendo.
Sendo engolida pela ignorância, pela indiferença e pela esperteza daqueles que já perderam a sua chama.
E mesmo aqueles que estão no mundo apenas pela festa, quando esta acaba – se não estão bêbados o suficiente –, sentem o perigo a rondá-los, mesmo em seus carros.
Por isso entram assustados para dentro de seus condomínios.
Esperando ali estarem a salvo.
Esquecem eles que castelos já foram postos abaixo.
Enfim – somos nós correndo com uma lanterna na mão e cuja pilha está enfraquecendo.
Mas, como os personagens do filme, precisamos continuar nessa corrida mesmo que a escuridão nos engula.
Talvez encontremos mais luzes pela frente e consigamos espantar as sombras.
Você tem pilhas?

quarta-feira, 25 de maio de 2011

DEFESA DOS LOBOS CONTRA OS CORDEIROS


Querem que o abutre coma miosótis?
O que exigem do chacal,
do lobo, que mude de pele? Querem
que ele mesmo extraia seus dentes?
O que é que não apreciam
nos comissários políticos e nos papas,
por que olham, feito burros,
o vídeo mentiroso?

Quem costura a faixa de sangue
nas calças do general? Quem
trincha, diante do agiota, o capão?
Quem pendura, orgulhoso, a cruz de lata
sobre o umbigo que ronca de fome? Quem
aceita a propina, a moeda de prata,
o centavo para calar-se? Há
muitos roubados, poucos ladrões; quem
os aplaude, quem
lhes põe insígnias no peito, quem
é sequioso de mentiras?

Olhem-se no espelho: covardes,
temendo a fadiga da verdade,
sem vontade de aprender, entregando
o pensar aos lobos
um anel no nariz como adorno preferido,
nenhuma ilusão burra o bastante, nenhum consolo
barato o suficiente, cada chantagem
é ainda clemente demais para vocês.

Ó cordeiros, irmãs
são as gralhas comparadas a vocês:
vocês se arrancam os olhos uns aos outros.
Fraternidade reina
entre os lobos:
andam em alcateias.

Louvado sejam os salteadores: vocês
convidam ao estupro
deitando-se no leito preguiçoso
da obediência. Mesmo gemendo
vocês mentem. Querem
ser devorados. Vocês
não mudam o mundo.

Do livro "Eu falo dos que não falam", do poeta alemão
Hans Magnus Enzensberger. Ed. Brasiliense, 1985.

Diálogo Imaginário

(Estória daqueles que estão condenados à esperança.)

- Você está consciente, meu filho, do que está fazendo?
- Estou sim, meu pai.
- Você sabia que andam dizendo que você tem piolho, não sabe andar de bicicleta e quer acabar com a arte contemporânea?
- Sei, sim, meu pai.
- Você sabe qual a razão disto, meu filho?
- Desconfio, meu pai.
- Você sabe que nunca deveria ter mexido nesse vespeiro?
- Sei sim, meu pai, mas não resisti.
- Não resistiu, por que , meu filho?
- Por que cansei de hipocrisia, meu pai.
- E que hipocrisia é essa, meu filho?
- Ah, isso de dizer que qualquer coisa que alguém chama de arte, é arte.
- Só isso, meu filho?
- Não, meu pai, como dizem lá no tráfico - "tá tudo dominado": estão no
controle de bienais, galerias, escolas de arte, o diabo a quatro.
- Do diabo a quatro, meu filho?
- E, meu pai, do céu e do inferno, acham que são donos da teoria, praticam o pensamento único, a arte única... aí, não aguentei mais!
- Mas você não tem ido a museus, visto exposições, meu filho?
- Tenho, meu pai, e esse é o problema.
- Você sabia que não basta ir a museus, meu filho?
- Sabia, meu pai.
- Você sabia que não basta ler sobre arte, meu filho?
- Sabia, meu pai.
- Você sabia que existem também os burocratas da arte, que controlam os
aparelhos culturais?
- Sei sim, meu pai.
- Você estava pronto para ser crucificado, meu filho?
- Estava meu pai, mas claro que preferia outras opções.
- Você disse para eles que a história da arte não começa nem termina com Klee, Kandinski, Malevitch e Duchamp?
- Disse, meu pai.
- Você disse para eles que a arte brasileira também não começa nem termina com Ligia Clark e Hélio Oiticica?
- Disse, meu pai.
- Você sabe que isso é insuportável na religião deles?
- Sei sim, meu pai.
- E o que mais você disse, meu filho?
- Ah, Já nem sei, disse que quem ama o feio bonito lhe parece. O que seria do amarelo se não fosse o mau gosto...
- Você sabe que isto está parecendo diálogo de Beckett em "O Fim de Jogo", meu filho?
- Sei, meu pai, mas na verdade é uma paródia/paráfrase/apropriação de
Clarice Lispector nas últimas páginas de "A Maçã no Escuro".
- Você sabe que a vida é um combate que os fracos abate e aos fortes só pode exaltar?
- Sei sim, meu pai.
- Você sabe que essa frase está errada, meu filho?
- Desconfiava, meu pai.
- Você sabe que, ao contrário, o mundo é dos audaciosos, dos arrivistas, dos que acham que qualquer coisa é arte...e do Bush?
- Sei sim, meu pai.
- Você sabe que em vez de dizer a verdade e revelar sentimentos, o que dá
certo é fazer alianças e exercer o poder, qualquer que seja?
- É o que estou constatando, meu pai.
- Você lhes disse aquela frase de Sócrates, meu filho?
- Sim, meu pai: "a verdade está entre os homens e não com os homens."
- E eles não entenderam isto, meu filho?
- Acho que não, meu pai, porque Sócrates se referiu aos "homens" e há mulheres nisto.
- Sócrates era pré-feminista, meu filho. Corrija a frase e me diga: Você sabia que o ser humano é uma porcaria, meu filho?
- Sabia sim, meu pai.
- Você sabia que você também é uma porcaria?
- Sabia sim, meu pai, mas o senhor inclui aí também o Duchamp e o Warhol?
- Você sabe que pregar a revisão de conceitos e pré-conceitos é tão perigoso quanto ter esperança?
- Sei sim, meu pai.
- O que é que Enzensberger disse sobre a vanguarda e os carneiros, meu filho?
- Que qualquer carneiro do rebanho julga-se carneiro-guia.
- E o que mais, meu filho?
- "Por que me abandonaste se sabias que eu sou fraco, se sabias que não sou Deus?"
- Isto está parecendo Bíblia misturado com Drummonnd, meu filho, e o que
quero saber é se você ainda tem alguma esperança?
- Alguma, meu pai.
- Você está consciente de que, com a esperança, você nunca mais terá repouso, meu filho?
- Estou sim, meu pai.
- Você está consciente de que, com a esperança você perderá todas as
outras armas, meu filho?
- Estou sim, meu pai.
- E que sem o cinismo você estará nu?
- Sei sim, papai.
- Então você disse pra eles que o rei está nu, meu filho?
- Disse, meu pai.
- Mas você não sabia que com isto levaria à falência a alfaiataria do imaginário real?
- Sabia, meu pai.
- Você sabe que uma pessoa pode encalhar numa palavra e perder anos de vida?
- Sei sim, meu pai.
- E você foi dizer a eles que eles encalharam na palavra "modernidade", "pós-modernidade" e "contemporâneo"? Além de incauto, você é muito pretensioso, meu filho.
- Eu sei, meu pai.
- Você está pronto para saber que, olhadas de perto, as coisas não têm forma, e que olhadas de longe as coisas não são vistas?
- Isso é de Clarice ou de algum critico de arte, meu pai?
- Cale a boca, meu filho. Quer dizer que depois de tudo o que tem visto, então, você ainda tem
esperança, meu filho?
- Tenho sim, meu pai.
- Então, vai, meu filho, ordeno-te que sofras a esperança.


                              Affonso Romano de Sant'Anna
                               31 de agosto de 2002 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

FESTA

Atrás do balcão, o rapaz de cabeça pelada e avental olha o crioulão de roupa limpa e remendada, acompanhado de dois meninos de tênis brancos, um mais velho e outro mais novo, mas ambos com menos de dez anos.
Os três atravessam o salão, cuidadosa mas resolutamente, e se dirigem para o cômodo dos fundos, onde há seis mesas desertas.
O rapaz de cabeça pelada vai ver o que eles querem. O homem pergunta em quanto fica uma cerveja, dois guaranás e dois pãezinhos.
Duzentos e vinte.
O preto concentra-se, aritmético, e confirma o pedido.
Que tal o pão no molho da almôndega? Fica muito mais gostoso.
O homem olha para os meninos.
O preço é o mesmo informa o rapaz.
Está certo.
Os três sentam-se numa das mesas, de forma canhestra, como se o estivessem fazendo pela primeira vez na vida.
O rapaz de cabeça pelada traz as bebidas e os copos e, em seguida, num pratinho, os dois pães com meia almôndega cada um. O homem e (mais do que ele) os meninos olham para dentro dos pães, enquanto o rapaz cúmplice se retira.
Os meninos aguardam que a mão adulta leve solene o copo de cerveja até a boca, depois cada um prova o seu guaraná e morde o primeiro bocado de pão.
O homem toma a cerveja em pequenos goles, observando criteriosamente o menino mais velho e o menino mais novo absorvidos com o sanduíche e a bebida.
Eles não têm pressa. O grande homem e seus dois meninos. E permanecem para sempre, humanos e indestrutíveis, sentados naquela mesa.

Wander Piroli, in "Para gostar de ler" - vol. 9 - Contos